Reflexão por:
Pr. Marcos Costa
Era uma quinta-feira, doze de
agosto de dois mil e quatro, ainda no inverno. A noite chegou, anunciando a José
que era hora de voltar para casa e cessar sua busca, assim como nos dias que a
este, antecederam. Muitas coisas passam por sua mente. Ele pensa em sua
família. Ensaia algumas frases que pudessem amenizar a dura verdade.
Entretanto, seu caráter puro, reto e íntegro, daquele que só se encontra em
homens símplices, não lhe permitia mentir. Seus olhos procuram evitar que as
lágrimas rolem. Mas, elas escapam e correm em sua pele sofrida, inundando os
veios cavados pelo tempo e pela dor. Ele não conseguia esconder. Estava ali,
estampada em seu rosto a imagem mais que real do abatimento, do desânimo e da
rendição diante das constantes negativas.
José é um homem de cinqüenta e
dois anos, marido de dona Rute, mulher igualmente simples e honrada. Tem cinco
filhos: Gabriel, Mateus, Maria Clara, Beatriz e o inesperado, mas muito
aguardado, José, seu caçulinha. Por estes, ele era extremamente apaixonado.
Sua esposa, embora simples, é
muito sábia e companheira. Ela faz questão de ensinar seus filhos desde cedo
acerca dos “sins” e dos “nãos” da vida. Também os ensina sobre a diferença
entre o “querer” e o “poder ter” e a agradecer e comer o simples “pão nosso”
daquele dia com a mesma alegria que outrora se comeu o filé mignon. Dona Rute extraía
essas lições da cartilha que a escola da vida lhe deu.
Esse aprendizado exercitado todos
os dias tornava aquele momento menos doloroso para todos. De modo algum, dona Rute
e as crianças expressavam indignação, cobrança ou qualquer atitude que fizesse
José se sentir pressionado. Todos sabiam: a “lista de desejos” tem que aguardar
um pouco mais. No entanto, José se vê colocado contra a parede pelo grosso
calibre de seu senso de responsabilidade. Neste momento de vacas magras, pesa
sobre seus ombros o dever de chefe de família: Sustentá-la.
Há pouco mais de oito meses, José
enfrenta essa rotina desgastante de sair todos os dias tendo em seu coração o
desejo de encontrar aberta uma porta, como aquela que se fechou. No princípio
da procura, ânimo. No avançar dos meses, abatimento e tristeza. Como sorrir
nessa situação? Como ter olhos vibrantes para que alguém possa acreditar em seu
potencial? Como soar uma voz firme e expressar alguma segurança, se o medo de
ouvir outro não era mais patente que sua própria figura? O que José já não
enxergava é que o seu estado de “ânimo” rendia-lhe apenas olhares de pena e
compaixão, ainda mais quando ele suplicava por aquela oportunidade de maneira
desesperadora! Isso também não funcionava... Mais um dia regressa ao lar sem
novidades.
Mas, naquela noite de doze de
agosto, José chega em casa por volta das vinte horas, toma seu banho e se põe à
mesa para o jantar com seus filhos e sua amada esposa. Ela fez uma omelete com
pimentão, salsa e tomate picados para disfarçar os ovos fritos que sempre os
acompanhava naqueles dias. Agradeceram a Deus por aquele alimento, como sempre
faziam e, comeram. As horas avançam, até que todos se recolhem para dormir. Às
cinco e meia da manhã o relógio despertador dispara na cabeceira da cama. José
estende a mão e o desliga, continuando deitado. Sua esposa percebe que passado
algum tempo, seu marido não se levantou da cama, embora permanecesse acordado.
Ela então, com sua doce e suave voz pergunta se ele não iria levantar-se, como
nos dias anteriores. Ele responde a ela que não. Afinal de contas, era
sexta-feira e que não era um bom dia para se procurar trabalho porque, na visão
dele, todos estão na expectativa do fim de semana e protelam seus compromissos
para a semana seguinte. E tem mais, disse ele: hoje está muito frio! Então, ela
o lembrou que ele não deixara de ir nas sextas-feiras anteriores. Mas José responde:
Hoje é um dia diferente, meu amor!
Rute, então, se levanta como
sempre para preparar as crianças para irem a escola. José permaneceu na cama.
Após algum tempo, sua esposa lhe anuncia que está saindo para levar as crianças
ao colégio e que logo estaria de volta. José lhe responde: tudo bem querida. Os
filhos entram no quarto e beijam o rosto do pai e se vão. A casa fica em um
silêncio angustiante para José.
Por volta das sete horas daquela
manhã, ainda deitado e só em casa, José, que não conseguiu mais dormir depois
que o relógio despertou, começa a falar consigo mesmo, derramando sua alma,
expressando suas queixas e até considerando o porquê continuar a viver. De
repente, ele ouve uma voz, que sabia não ser de sua mente. Esta voz que lhe
falava de maneira tão amistosa pediu a ele para que se levantasse e, por um
instante, fosse até o quintal de sua casa. Estranhando, mas movido pela
curiosidade e ainda de pijamas, se enrolou em sua coberta, calçou os chinelos e
saiu ao quintal. Estava uma manhã muito fria, embora o céu estivesse azul anil.
Então, aquela voz lhe pediu para que olhasse para o sol. Ele olhou mas, em
poucos segundos, fechou os olhos porque a luz era muito forte. Então a voz
falou a José que ele deveria tomar como exemplo o sol, que naquela manhã tão
fria, saiu pelo céu acreditando que alguém precisaria do seu calor e de seus
raios de luz. Mesmo sabendo que as noites sempre existirão, acredita que
infalivelmente chegará a manhã e o momento dele brilhar. Muitas vezes, as
nuvens conseguem encobri-lo. Mas, ele também sabe que as nuvens são passageiras,
não duram para sempre não importa quão grandes ou altas elas sejam e estejam. O
sol nunca pára! Quando você pensa que ele está dormindo, na verdade ele está do
outro lado, ajudando a outros. Incansavelmente, sem parar, sem murmurar e
sempre “sorrindo” em sua força. Pense nisso, José! E a voz silenciou-se...
Quando José volta daquela
“viagem” maravilhosa, vê diante dele sua esposa que acaba de chegar. Ele a
abraça de maneira tão calorosa e vibrante, mais do que anteriormente, e
declara: Hoje é um dia diferente! Você já olhou para o sol, meu amor?! Correu
para dentro de casa e foi tomar um banho. Raspou a barba de cinquenta dias.
Vestiu-se alinhadamente e com um sorriso radiante saiu, despedindo-se de sua
esposa e prometendo logo estar de volta com novidades, porque aquele era um dia
diferente!
Incrivelmente, aquela
sexta-feira, treze de agosto de dois mil e quatro, no inverno ensolarado, foi
um dia diferente na vida de José. Como um sol ele saiu, cheio de forças. Apesar
das nuvens de dificuldades que queriam encobrir sua visão de dias melhores.
Apesar da frieza dos “nãos” já recebidos que estavam congelando sua esperança.
Ele saiu, sabendo que sua família dependia do seu “brilhar”. Ele saiu, bateu
nas portas. Alguém o recebeu. Ele falou, impressionou, convenceu, brilhou e
venceu. Tudo que ele teve que fazer foi emanar a luz que ele havia deixado
apagar em si mesmo.
José voltou para casa antes do
sol se pôr e quando viu seus filhos e sua esposa não se conteve e, em um misto
de lágrimas e sorrisos, deu-lhes a tão esperada notícia do novo e maravilhoso
emprego, além daquilo que eles esperavam. Para eles, o “sol” nunca mais deixou
de nascer...
Quando nasce o sol é momento do
anúncio de um novo dia, de um renovar da esperança e de um novo tempo para uma
vida!
Deixe tua luz brilhar mesmo em
dias de “nuvens carregadas” e recobre suas forças quando os nãos te sucumbirem.
Levante-se, lute, persevere, vença e brilhe! Mas, principalmente, deixe a Luz
Divina, através da fé em Cristo, brilhar sobre ti.