Por esses
tempos, pediram meu posicionamento quanto a esta questão. Então elaborei este
texto para explanar a minha visão sobre este assunto tão delicado. Sem dúvida
alguma, ela converge com a opinião de muitos. Mas por se tratar de um tema
polêmico, diverge de tantos outros, também.
Na
pergunta que me fizeram, pediram a resposta acerca do suicida na condição de
ser um “cristão” e também, no caso de ser um “não-cristão”. Então, exponho
minha visão começando com o caso do suicídio de um não-cristão que para mim é
mais prático e direto e na sequência, trato da condição de um cristão que
cometa suicídio, que requer algumas observações a mais.
1º - O suicida não-cristão:
Este, biblicamente,
não terá vida eterna com Deus. Não propriamente pelo suicídio, mas sim, pelo
fato de não ter crido em Cristo como Filho de Deus, Único e Suficiente Salvador
de sua vida e, por conseguinte, não nascendo da “água” e nem do “Espírito” como
ensinado no evangelho de João nos capítulos 1 e 3, que são prerrogativas
indispensáveis para a vida eterna, segundo Cristo.
Em outra
oportunidade, tratarei do que é “nascer da água e do Espírito”. Mas, já adianto
que não se trata de meramente ser um evangélico de qualquer patente afiliado a
alguma organização religiosa que fica cantando e dando glória a Deus. Jesus já
avisou que “nem todo que me diz: Senhor!
Senhor! Entrará no Reino de Deus”. Ponto.
2º - O suicida cristão:
Primeiramente,
o cristão verdadeiro tem a consciência de que somente a Deus cabe a decisão de
quando a sua vida deve findar-se, já que subentende-se que este “entregou” sua
vida a Deus. Logo, já não tem mais “domínio” ou poder de decisão sobre ela;
isto é, de intervir no que é alheio. Para muitos, isto soa como poético e
emocional quando, na verdade, deveria ser observado como racional e lúcido.
A segunda
coisa, seria a motivação para o cometer suicídio. Há alguns que defendem a tese
de que, em circunstâncias de grande dor e sofrimento seria justificável a
decisão de alguém se matar. Eu não compartilho desta opinião, por enxergar na
própria Bíblia Sagrada o relato do extremo sofrimento de Jó. Ele viu
seus dez filhos (sete rapazes e três moças) morrerem juntos por causa de um
desabamento do local onde estavam dando uma festa. Experimentou a ruína do seu
patrimônio conquistado ao longo de sua vida com labor. Sofreu o afastamento de
quase todos os seus amigos, sendo que uns três ou quatro que restaram, ficavam
somente trazendo palavras de peso e condenação. Convivia com a indiferença e
falta de apoio de sua mulher. E para completar o seu “cálice” de sofrimento, Jó
se viu acometido de uma doença mortal, além de “parecer” que Deus o tinha
abandonado (leia isso em Jó, capítulos 1 e 2 ). Se o
sofrimento extremo é motivação para o suicídio, Jó deveria ter cometido isso. E
não faltou incentivo! Sua “adorável” esposa sugeriu que ele amaldiçoasse a Deus
e depois, desse cabo de sua vida (Jó 2.9-10). Ao invés disso, Jó expressa sua
fé e confiança no seu Deus preferindo continuar vivo crendo na ajuda do Senhor.
Logo, um
sincero cristão sabe que por mais que suas circunstâncias sejam extremamente
dolorosas, Deus está no controle de todas as coisas e que Ele o ajudará a
superar tudo na vida, sejam as perdas materiais ou, o falecimento de alguém que
se estime. Em minha visão, não há como justificar o suicídio de um cristão.
Alguns
exemplos bíblicos de pessoas que cometeram suicídio, referem-se a pessoas que
após terem vivido por algum tempo “para Deus” preferiram se desviar e,
consequentemente, perderam a fé e a esperança de algum favor do Senhor. É o
caso de Saul (1 Samuel, capítulos 10, 16.14-16, 31.1-6) e de Judas (Mateus
27.1-5; Atos 1.15-26).
Há alguns,
que defendem que Sansão cometeu suicídio. Eu, todavia, enxergo que ele na
verdade fez aquilo com a intenção de matar os filisteus e quem sabe, com um
pouco de sorte, sobreviver. Mesmo sabendo do risco iminente. Pois ele mesmo
disse “morra eu com os filisteus”. Ele preferiu correr o risco e
morreu naquele desabamento (Juizes 16.28-31). Já em Hebreus 11.32-36,
percebemos que Sansão é descrito na galeria dos heróis da fé.
Outro
fato, que vale a pena ressaltar é o de que, em momentos extremamente difíceis e
dolorosos, um verdadeiro cristão pode pensar e considerar a morte como uma
saída, solução ou até mesmo, como descanso. Foi o caso de Elias em face de seu
esgotamento físico e emocional (1 Reis 19.1-7). Mas, é importante notar que em nenhum momento Elias planejou
matar-se. Mas, pediu que Deus o “recolhesse” por achar que sua missão terrena
havia terminado ou, que não estivesse surtindo qualquer efeito positivo. O
Senhor não tirou a vida de Elias por mais que parecesse “justificável” sua
motivação. E o que é mais maravilhoso é que Elias foi para o alto sem saber o
que é a morte física. Neste texto, eu enxergo o propósito e o tempo de Deus
para a vida daquele que o teme.
Por fim,
chegamos a questão: Um cristão que se suicida terá Salvação para a Eternidade?
A bíblia
não traz um texto que claramente fale acerca do suicídio como um ato que não
tenha salvação espiritual. Todavia, apoio minha convicção em um ato, o qual a
Palavra de Deus classifica como um pecado passível de condenação eterna: o
HOMICIDIO ou, ASSASSINATO.
Embora
homicídio seja descrito como “a morte de
uma pessoa efetuada por outrem”, na sua essência trata da morte de um ser
humano. Neste sentido, não importa se foi um auto-assassinato ou, se provocado
por alguém – houve uma perda de vida. Neste ponto, eu defino o suicídio como um
assassinato: assassinato de si mesmo.
Partindo
para os textos bíblicos, eu encontro o seguinte:
1 João 3.15 – “Qualquer
que aborrece a seu irmão é homicida. E vós sabeis que nenhum homicida tem
permanente nele a vida eterna.” (ARC)
O apóstolo
João declara que “nenhum homicida tem
permanente nele a vida eterna”, isto é; a pessoa que põe cabo a uma
vida, entendo eu, dela ou de outrem, não estará na eternidade com o Pai.
Lembre-se
que João está dirigindo estas palavras a igreja, para os cristãos. Aqui, faço
uma observação quanto ao contexto do que ele escreveu para que ninguém pense
que estou usando o texto isolado para estabelecer alguma doutrina. No texto,
João diz que um “irmão” que tenha atitudes, palavras e comportamento capazes de
aborrecer, escandalizar e desviar um outro irmão do caminho da fé comete um
pecado tão grave quanto um “homicida”. Isto é, ele “mata” o irmão
espiritualmente, enquanto este último, mata fisicamente. Ambos, segundo a
afirmativa de João, ficarão fora do Reino de Deus.
Já em Apocalipse 22.13-16, Jesus
Cristo, instruindo a João acerca do que transmitir às igrejas, apresenta uma
lista de comportamento e atitudes de pessoas que não terão parte na vida
eterna, dentre elas, os homicidas.
“Eu
sou o Alfa e o Ômega, o Princípio e o Fim, o Primeiro e o Derradeiro. Bem
aventurados aqueles que lavam as suas vestiduras no sangue do Cordeiro, para
que tenham direito a árvore da vida e possam entrar na cidade pelas portas.
Ficarão de fora os cães e os feiticeiros, e os que se prostituem, e os
homicidas, e os idólatras, e qualquer que ama e comete a mentira. Eu,
Jesus, enviei o meu anjo para vos testificar estas coisas nas igrejas. Eu sou a
Raiz e a Geração de Davi, a resplandecente Estrela da manhã.” (ARC)
Conclusão: Acredito que o “dar cabo de uma vida”,
própria ou de outrem, implicará em perda de Salvação.
Quero
fazer aqui uma ressalva. Nem eu, nem qualquer outro cristão deve sair por ai
declarando juízo sobre quem foi ou não para o “céu”. Pois só Deus,
verdadeiramente, conhece o ser humano. Ele enxerga além da aparência e sua
misericórdia é tão grande que chega a ser incompreensível para nossos padrões
de pensamentos. É lógico que, alguns padrões de comportamento humano, quando
confrontados com aquilo que a Bíblia descreve como a vontade de Deus, se acham
em contrariedade, me permitem afirmar que a persistência neles, porá em risco
uma possível Salvação para vida eterna. Mas, o Juízo Final pertence sempre a
Deus.
“E
quem me vê a mim, vê aquele que me enviou. Eu sou a luz que vim ao mundo, para
que todo aquele que crê em mim não permaneça nas trevas. E se alguém ouvir as
minhas palavras, e não crer, eu não o julgo; porque eu vim, não para julgar o
mundo, mas para salvar o mundo. Quem me rejeitar a mim, e não receber as minhas
palavras, já tem quem o julgue; a palavra que tenho pregado, essa o há de julgar
no último dia. Porque eu não tenho falado de mim mesmo; mas o Pai, que me
enviou, ele me deu mandamento sobre o que hei de dizer e sobre o que hei de
falar. E sei que o seu mandamento é a vida eterna. Portanto, o que eu falo,
falo-o como o Pai me tem dito.”
(João 12:45-50 – ARC)
Graça e
Paz de Cristo. Amém.
Pr. Marcos Costa
Igreja Bíblica do Calvário